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A pernambucana Karina Buhr voltou ao mercado fonográfico mais feroz do que nunca em Selvática. Confrontando não só o machismo, mas o conformismo feminino, Karina luta por consciência não só por parte dos homens, mas principalmente de parcela da população feminina que ainda não está sensibilizada em relação a própria libertação; nos versos de Eu Sou Um Monstro a artista diz “Mulher, tua apatia te mata. Não queira de graça o que nem você dá pra você.”.
Pic Nic é de longe a minha faixa favorita, soa como um diálogo entre classe dominante e oprimidos, a vida de quem dá duro pra conseguir o pão de cada dia e a vida de quem não precisa se esforçar tanto por pertencer a um classe dominante e opressora. A faixa título do disco encerra o álbum como um tipo de manifesto que ao mesmo tempo é oração, evangelho das bruxas e apelo “Não ferirás nenhum corpo por ser feminino com faca ou murro ou graveto! [...] E no final ideal não terás domínio sobre mulher alguma! Ela come a selva de fora! Ela vem da selva de dentro! Ela vale a própria hora! Ela vale o pensamento”. Explicita elementos culturais opressores de nossa realidade, desde os hábitos cotidianos aos princípios de um discurso religioso que tem no patriarcado sua força motriz. Selvática (onde Karina está mais afiada) é o resultado de reflexões já presentes em seus trabalhos anteriores e que dessa vez vai mais fundo ainda, põe o dedo na ferida e confronta o cotidiano brutal dos brasileiros e, principalmente da mulher brasileira.

Segundo EP da sul-coreana Kahi. Um lançamento menos descartável que seu trabalho de estreia. Ao contrário de seu debut em 2011, Who Are You? (2013) é mais consistente e não soa como um pequeno punhado de faixas aleatórias sem coerência sonora e embalagem bonita. A música pop desse EP transita entre o R&B e o hip hop, não fazendo nada de excepcional, o que não é necessariamente ruim. A produção é bem feita e os vocais de Kahi são suaves e fazem contraste com instrumentais mais ofuscantes, o que acaba dando um certo equilíbrio, Boys and Girls é um exemplo disso. A sofisticação da produção de Who Are You? é projetada visualmente na forma de seu vídeo de divulgação, It’s Me, onde Kahi está incrivelmente elegante. Um contraste interessante é a sequência coreografada do vídeo, em preto e branco que tem a estética de vídeos pop dos anos 90: o cenário branco apenas com os dançarinos e blusa com barriga de fora. Hey Boy e as guitarras de Sinister dão um pouco de peso ao EP. A hip hop-based Colorful World segue dando coerência sonora; além disso, sua produção inclui instrumentais que soam como old-school jazz, blues e soul, o que faz dela um dos destaques (se você tá sem referência, é só lembrar dos elementos de Back to Basics de 2006). A faixa de encerramento, Slow, é uma balada filler, comum. Kahi é ex-integrante de um famoso girl-group coreano chamado AFTERSCHOOL, não sei como os fãs do grupo reagiram às músicas de seu segundo trabalho solo (que soa mais adulto com toda certeza), só sei que eu gostei muito.